As Canetas Emagrecedoras e o Esporte de Endurance – uma boa ou má idéia?

As Canetas Emagrecedoras e o Esporte de Endurance – uma boa ou má idéia?

Medicamentos para perda de peso como o Wegovy (Semaglutida) Mounjaro (tirzepatida), entre outros, estão super em alta quando falamos emagrecimento. Apesar de terem como principal objetivo o tratamento da Obesidade, Diabetes tipo 2, Resistência à insulina e outras comorbidades relacionadas ao excesso de peso, esses medicamentos estão se popularizando bastante em contextos que nem sempre envolvem as questões clínicas mencionadas anteriormente.

Não raro encontramos pessoas que praticam corrida e Triathlon mas que gostariam de perder uns quilinhos seja por saúde, por estética e inclusive por performance. Mas será que usar esse tipo de medicação em atletas de endurance é uma boa ideia?  

Embora os medicamentos possam facilitar a redução do peso corporal — um fator que, em muitos casos, melhora a economia de corrida e reduz o impacto nas articulações — vale destacar que emagrecer por si só não é a única solução para a melhora da performance esportiva.

Isso porque, preparar o corpo para muitas horas de esforço e treinamento enquanto se emagrece com uso desses medicamentos pode ser uma combinação improdutiva e até mesmo perigosa.

Estes fármacos é ativam o receptor de GLP1, hormônio incretínico que aumenta a secreção de insulina e reduz o apetite, além disso, diminuem a sensação de fome por ação hipotalâmica e também causam uma certa intolerância à ingestão de grandes volumes de comida. Para atletas de endurance, este mecanismo pode tornar-se um desafio: imagine você tendo que treinar horas e horas por semana, estando com seu apetite reduzido e, portanto, correndo o risco de estar fazendo uma alimentação inadequada para suportar o treinamento.

Durante uma preparação para uma meia maratona, maratona, Ironman ou prova de ciclismo de longa distância, o organismo necessita ingerir quantidades suficientes de carboidratos, proteínas e calorias para suportar o volume de treino e recuperar entre sessões.

Quando a ingestão energética se torna insuficiente, o atleta pode ficar déficit energético crônico (semelhante ao RED-s), conforme destaca a Nutricionista e Educadora Física Sylvia Pozzobon.

“O atleta em uso dessas medicações que treina muito e come pouco, inicialmente não sente tanta queda no rendimento, porém, dentro de poucas semanas em restrição alimentar ele pode começar a perceber dificuldade de entregar os treinos prescritos na planilha, um cansaço pós treino que dura mais tempo que o habitual, alterações no padrão de sono, dificuldade de ingerir suplementos, especialmente carboidratos durante o treino. E, mantendo o tratamento com treinamento longo e intenso, dentro de algum tempo ele experimenta queda no VO2 máximo, queda da imunidade, perda de massa magra, prejuízo da recuperação muscular, lesões e até mesmo disfunção hormonal e isso pode ser bastante perigoso para a saúde desse atleta de um modo geral”.

O risco de perder músculo

Outra questão bastante importante quando falamos da perda de peso acelerada pelo uso de medicamentos é a perda de massa muscular. 

Embora o objetivo seja eliminar gordura corporal, parte do peso perdido pode ser de músculo, podendo corresponder a cerca de 10–20% do peso perdido, algo potencialmente prejudicial para resistência prolongada e prevenção de lesões.

Isso pode vir a ocorrer mesmo com a ingestão de proteína e suplementos alimentares e mesmo fazendo também treino de força – apesar de esses dois fatores ajudarem a amenizar a perda de massa muscular.

Para corredores e triatletas, preservar a massa muscular é essencial não apenas para produzir potência, mas também para proteger tendões, articulações e manter a eficiência do movimento ao longo de horas de exercício.

Por esse motivo, especialistas recomendam que atletas que buscam emagrecer ao mesmo tempo que se preparam para provas de endurance, mantenham duas ou três sessões semanais de treino de força e assegurem uma ingestão adequada de proteína ao longo do dia, bem como atentem para a ingestão calórica total, evitando déficit exagerado.

Dificuldade de alimentação durante os treinos 

Um dos maiores desafios surge nos treinos longos. Como o medicamento atrasa o esvaziamento gástrico, alguns atletas relatam, refluxo, náuseas, sensação e de empachamento e até vômitos.  A medicação pode levar à dificuldade de consumir géis, barras ou bebidas energéticas durante o exercício. Esta situação pode comprometer a estratégia nutricional, especialmente em provas e treinos com mais de 90 minutos duração, onde a ingestão regular de carboidratos é determinante para manter o desempenho.

“Géis menos viscosos e carboidratos diluídos em água costumam ser mais bem aceitos. O hidrogel também tem se mostrado uma alterativa bem tolerada”, conforme ressalta a Nutricionista Sylvia Pozzobon.

A grande questão neste caso é que a dificuldade de reposição adequada de carboidratos, combinado com o elevado gasto energético pode gerar um déficit calórico elevado sem que o atleta perceba e a medida que os treinos prosseguem, a saúde por estar sendo comprometida lentamente.

Risco aumentado de desidratação

Apesar de não haver mecanismo de redução da sensação de sede pelo uso das canetas emagrecedoras, na prática muitos atletas relatam a menor ingestão espontânea de líquidos. Isso porque ao retardar o esvaziamento gástrico, a sensação de “estômago cheio” permanece por mais tempo, levando a um menor desejo de beber água. Além disso, caso o atleta esteja muito nauseado, também acaba bebendo menos líquidos para tentar reduzir a sensação de enjoo ou mesmo o refluxo.

Assim, a intolerância gastrointestinal gerada pelos remédios pode aumentar o risco de desidratação, hiponatremia e menor tolerância ao calor, seja por ingestão inadequada de líquidos (reposição hídrica baixa na rotina e em treinos e provas), seja por facilitar vômito e diarreia.

Monitorizar o peso antes e depois dos treinos, bem como a cor da urina, continua a ser uma forma simples de avaliar o estado de hidratação.

“Atletas em uso de remédios para emagrecer devem fazer a hidratação programada durante os treinos, não guiada apenas pela sede. Devem também usar soluções de sódio para manter o equilíbrio hidroeletrolítico e evitar treinar intensamente nas primeiras semanas de uso ou na troca da dose, quando o desconforto gastrointestinal é maior”. (Sylvia Pozzobon).

Agonistas de GLP-1 e a WADA: é doping?

Atualmente a Semaglutida e a Tirzerpatida e outros medicamentos pertencentes à classe dos agonistas de GLP-1 não são consideradas doping, mas estão na lista de monitoramento da WADA (desde 2024), tendo, portanto, seu uso permitido. Entretanto, se o uso da substância comprovadamente gerar potencial ganho de performance, representar risco para a saúde do atleta ou violar o espírito esportivo, pode ser considerado doping a qualquer momento, mesmo não estando presente na lista oficial.

Usar ou não usar remédio?

Segundo a Nutricionista Sylvia Pozzobon, a escolha de usar o medicamento para perda de peso em um atleta, além de ser supervisionada e orientada por um médico, deve levar em conta se há de fato a REAL NECESSIDADE de buscar a perda de peso por esta via, pois o medicamento não substitui a periodização nutricional. Deve-se a avaliar se estamos diante de um atleta amador que de fato possui excesso de peso, bem como alterações metabólicas que justifiquem o uso OU se estamos diante de um atleta que “apenas” quer perder peso visando tornar-se de alguma maneira mais competitivo.

Além disso, deve-se levar em conta também o momento do treinamento, ou seja, evitar que o tratamento coincida com fases de maior carga de treino ou com a proximidade de uma competição importante, pois combinar redução da ingestão calórica com ciclos de treinamento de maratona, meia maratona, ciclismo ou triathlon pode ser um risco para a saúde do paciente, destaca a profissional.

Então, quem pretende emagrecer deve abandonar o objetivo competitivo? Não necessariamente. Para atletas com excesso de peso ou obesidade, a redução ponderal pode traduzir-se em melhorias importantes na saúde cardiovascular e no desempenho. No entanto, a perda de peso deve ocorrer de forma compatível com as exigências do treino e da fase de treinamento.

Os agonistas de GLP-1 não são medicamentos para melhorar a performance. O seu objetivo é tratar doenças metabólicas e auxiliar a perda de peso quando existe indicação clínica. Em atletas, exigem avaliação e monitorização criteriosa para evitar riscos para a saúde.

Colaboraram nessa matéria:

Sylvia Pozzobon, Maratonista e Triatleta 

Nutricionista CRN 18101326 | Profissional de educação física CREF 069352-g/rj