O Triathlon virou apenas “moda”?
Evidências científicas podem ajudar a mudar essa perspectiva
Redação
O Triathlon pode ser associado a uma redução de até 41% de mortalidade
Para começar, você, triatleta ou não, já deve ter escutado algum comentário sobre um conhecido que “começou a fazer triathlon, porque virou moda”.
O triathlon está sim em evidência. Então vamos falar dela, da evidência. Foi publicado um estudo na BMJ (British Medical Journal), em 26 de novembro de 2025, com 111.467 pessoas. Sendo 70.725 mulheres e 40.742 homens, todos profissionais da saúde, acompanhados durante 30 anos.
A cada 2 anos, foram aplicados formulários para atualização de informações como: frequência de atividade física semanal, informações demográficas, histórico de saúde, tabagismo, peso, alimentação, consumo de álcool e integração social — incluindo estado civil, rede de contatos e participação em grupos.
Os participantes não tinham registros de comorbidades no início do estudo e praticavam uma modalidade ou mais modalidades de exercício físico, em intensidades variadas, sendo pelo menos cinco lances de escada por dia ou 20 minutos semanais. O tempo dedicado a cada exercício foi convertido em MET (equivalente metabólico de cada tarefa) horas/semana, ao longo desses 30 anos.
Após a morte, a causa foi avaliada e relacionada à pratica de uma ou mais modalidades de exercício físico. Foi identificada uma redução de 19% no risco de mortalidade, por qualquer causa, no grupo que praticava mais de uma modalidade de atividade física ao longo destes 30 anos, quando comparado ao grupo que praticou apenas uma modalidade.

E até 41% a menos, quando por causas específicas (doenças cardiovasculares, respiratórias e câncer). E qual a relação com o triathlon? Ele é composto por 3 modalidades de atividades (natação, ciclismo e corrida), que foram avaliadas neste estudo, então podemos incluir o triatleta - saudável, constante e acompanhado - neste cenário.
O impacto positivo na longevidade se dá pelos diferentes estímulos proporcionados por cada modalidade ao longo do tempo. Cada uma trabalha, de uma forma diferente, diferentes sistemas.
Isso quer dizer que o triathlon é a resposta para a longevidade? Não. Não é o esporte em si que garante longevidade, e sim a prática regular, orientada e sustentável, ao longo da vida.
Inclusive, os dados trazidos neste estudo não servem para todos os triatletas. Quem possui hábitos prejudiciais à saúde durante a prática do esporte ou quem treina pontualmente, com o objetivo de fazer apenas uma prova, ganhar um título e abandonar o esporte, não se enquadra no perfil avaliado nesse estudo a longo prazo, ok?
A “moda" nas redes sociais existe, não podemos negar. Mas por si só, não é um problema. Cada um tem uma história e um objetivo. O problema surge quando a performance e os likes se sobrepõem à saúde.
Ao associar essa evidência robusta ao triathlon, podemos reforçar a cultura do esporte na sua essência, como estilo de vida. Portanto, se virar moda se exercitar com regularidade, através das 3 modalidades e cuidar da saúde, que ela se espalhe!
Historicamente já foram moda:
- Cigarro (tabagismo ativo provoca mais de 7 milhões de óbitos por ano no
mundo - World Health Organization - 2025);
- Bebida alcoólica (2.6 milhões de mortes, no mundo, foram atribuídas ao consumo de álcool em 2019, representando 4.7% de todas as mortes neste ano -World Health Organization - 2024);
- Vape (42% de chance a mais de terem um infarto do que aqueles que não fazem uso do produto - Stella Martins, especialista em dependência química da áreade Pneumologia no Hospital das Clínicas (HC) da USP).
Portanto, não há razão para críticas à prática de um esporte. Quem começou por moda, mas descobriu uma paixão e se mantém constante no esporte; quem começou pela saúde e não quer mais parar porque sente, diariamente, os benefícios físicos e mentais; quem iniciou a prática para acompanhar amigos e hoje não pula um treino, mesmo que esteja sozinho... todos começaram. Todos continuaram.
IRONMAN ou não, a linha de chegada não precisa ser o fim. Afinal, não existe linha de chegada para quem ama o processo. Faça provas, treine, cuide da saúde, compartilhe o caminho, mas continue. E colha bons frutos.
Particularmente, sou muito grata por ter encontrado a minha cura para obesidade, burnout e depressão através desse esporte. Além de ser parte do tratamento para hipercolesterolemia familiar, que sou diagnosticada desde mais Jovem (tenho, naturalmente, maior risco de doenças cardiovasculares no futuro, se não me cuidar). Me dedico e seguirei me dedicando, de forma saudável, enquanto for possível. Pela saúde, não pelas provas ou por competição. Mas essa é a minha história.
Se alguém fizer por provas e competição, mas mantiver uma frequência de treinos e competições ao longo da vida, acompanhamento adequado e com saúde, vai fundo!
Não precisa ser o triathlon, mas busque a sua forma de se movimentar. Ou melhor, as suas formas.

A evidência explicada
Deixa só eu te explicar a força dessa evidência. O estudo que foi analisado juntou dados de duas grandes coortes americanas:
• Nurses’ Health Study (NHS)
→ 70.725 mulheres, todas enfermeiras registradas.
→ Acompanhadas desde a década de 1970, com informações atualizadas a
cada 2 anos.
•Health Professionals Follow-Up Study (HPFS)
→ 40.742 homens, todos profissionais da saúde (médicos, dentistas,
veterinários, farmacêuticos etc).
→ Iniciado em 1986, também com acompanhamento bienal.
No total: 111.467 profissionais da saúde
Eles são considerados padrão-ouro em epidemiologia (ou seja, informaçãoconfiável e de qualidade) por possuirem:
•Seguimento muito longo
→ Mais de 30 anos de acompanhamento, o que é raríssimo.
•Dados de alta qualidade
→ Participantes da área da saúde tendem a relatar hábitos (atividade física,
dieta, doenças) com mais precisão.
• Atualizações regulares
→ Não é uma “foto” da vida de uma pessoa, mas um filme ao longo do tempo
(atividade física reavaliada em diversos momentos = o mais próximo da vida real).
Grande número de eventos
→ Quase 39 mil mortes registradas, permitindo análises estatísticas robustas.
Gabriela Torres, triatleta e Médica
Referências:
- BMJMED 2026;5:e001513. doi:10.1136/ bmjmed-2025-001513
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Tobacco. Disponível em:
<https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/tobacco>
- WHO. Global status report on alcohol and health and treatment of substance
usedisorders.Disponívelem:<https://www.who.int/publications/i/item/978924009674>.
- Cigarros eletrônicos aumentam em 42% as chances de o usuário ter um
infarto.Disponívelem:<https://jornal.usp.br/atualidades/cigarros-eletronicos-aumenta
m-em-42-as-chances-do-usuario-ter-um-infarto/>.