Sensação de quebra: Fadiga induzida pelo esporte
A complexidade do processo psicofisiológico que desencadeia a sensação de fadiga
Redação
Muitos atletas profissionais e amadores já experimentaram a sensação de “quebra” na competição, aquela sensação de pane geral do corpo. Esse fenômeno conhecido como fadiga, é definido como uma quebra interna da homeostase (equilíbrio) causada por um aumento na produção de energia exigida por um estímulo externo, levando a uma diminuição no desempenho físico relacionada a um aumento na dificuldade real/percebida do exercício, bem como a incapacidade dos músculos de acompanhar o nível de esforço específico do exercício.
A sensação de fadiga parece ocorrer antes de qualquer dano aos sistemas do corpo, o que costuma ser chamado de 'fadiga volitiva', indicando que o atleta decidiu parar de se exercitar. A exaustão pode ser definida como uma fadiga extrema, um estado no qual um indivíduo pode exceder seus limites fisiológicos e, em seguida, experimentar uma falha "catastrófica" da homeostase.
O processo psicofisiológico que desencadeia a sensação de fadiga é complexo e pode resultar de fatores periféricos e centrais, e é sobre isso que vamos tratar nos próximos parágrafos.
Para quem já passou por isso, sabe que a sensação não é agradável, e muda completamente o resultado da prova. Apesar do aporte nutricional ser um fator chave no seu desenvolvimento, outros mecanismos vêm sendo descritos como causadores desse fenômeno em atletas.
De fato, a perda de geração de força pelos músculos ocorre por conta da deterioração de um ou vários processos fisiológicos, e esse processo é conhecido como “fatores dependentes da tarefa”, e é um princípio que surgiu na última década.

A fadiga induzida pelo exercício enfatiza o fato de que não existe um único mecanismo responsável pelo seu desenvolvimento, mas trata-se de multifatorescomplexos que pode incluir anormalidades orgânicas do sistema nervoso central (SNC, fadiga central) e/ou disfunção do sistema nervoso periférico que envolve o músculo esquelético (fadiga periférica).
Nesse sentido, a fadiga central se caracteriza por uma diminuição na ativação voluntária dos músculos, relacionada diretamente à diminuição da frequência e sincronização dos motoneurônios, e a uma redução do impulso do córtex motor (ou seja, uma diminuição no número e nas taxas de descarga das unidades motoras recrutadas no início da geração de força muscular). Já a fadiga periférica tem como característica a diminuição da força contrátil das fibras musculares com alterações nos mecanismos subjacentes à transmissão dos potenciais de ação muscular.
Apesar desse entendimento sobre o fenômeno, ainda sim a fadiga é considerada uma experiência de percepção subjetiva, onde essa percepção é influenciada por uma grande variedade de aspectos. Por exemplo, sabe-se que a interpretação de esforço e estresse difere entre os sexos quando ambos são expostos a mesma carga, onde observa-se uma percepção maior entre as mulheres.
Da mesma forma, a percepção de fadiga é maior entre as mulheres. Um bom exemplo dessa diferença é a fibromialgia, uma doença que tem como principal característica, além da dor, a fadiga intensa, e que tem uma incidência maior entre as mulheres em comparação aos homens.

A modalidade do esporte tem grande impacto sobre a fadiga. Esportes de ultra resistência como o Triathlon, principalmente provas mais longas como o Ironman e o 70.3 apresentam um componente significativo da fadiga central em comparação com esportes atléticos mais curtos. Já os esportes explosivos e coletivos apresentam uma ampla gama tanto de fatores periféricos como centrais. Além disso, problemas pessoais, ansiedade, privação do sono contribuem para o aumento da percepção subjetiva da fadiga, aumentando dessa maneira a fadiga central, sendo esse fator especialmente importante para atletas amadores e recreativos que conciliam o esporte com a vida pessoal (trabalho e família). Nesse caso, vemos a importância de dar atenção especial a uma boa recuperação e descanso durante as fases de treinamento.
Pesquisas mais recentes sugerem que a fadiga central se origina no cérebro, sendo um dos fatores principais as mudanças bioquímicas produzidas, que incluem o acúmulo de serotonina extracelular durante a prática de exercícios, ou outras moléculas como ácido gama-aminobutírico, glutamato ou dopamina. No caso da serotonina foi relatado que com o aumento da intensidade do exercício, a atividade serotoninérgica aumenta, produzindo sensação de letargia, perda do impulso neural e, consequentemente, perda do recrutamento de unidades motoras. Nesse caso, você pode estar pensando: “mas sempre ouvi dizer que fazer exercício era bom porque liberava serotonina e dopamina, e isso levaria a melhora do humor, memória e cognição”. De fato, a serotonina tem sido implicada na ação antidepressiva e ansiolítica do exercício, sendo que o exercício crônico parece ser tão eficaz quanto o tratamento antidepressivo(fármacos) em humanos. Mas, existe uma relação entre a serotonina e fadiga que é importante. A serotonina possui, pelo menos, cinco diferentes receptores de membrana celular, cada um com sua estrutura molecular, ação e distribuição no SNC. Esses receptores desempenham um papel fundamental na fadiga, e evidências vêm demonstrando que mudanças na sensibilidade ou regulação desses receptores de serotonina centrais e periféricos estão associados à fadiga central durante exercícios de longa duração.
Além de prejudicar o desempenho físico, a fadiga central também causa fenômenos de fadiga cognitiva, que está associada a transtornos comportamentais e de humor. Prolongar um estado agudo de fadiga do SNC pode levar a distúrbios do sono, depressão, dor, dificuldade em manter a vigilância cognitiva e dificuldades em manter a atenção mental. Tem sido demonstrado que o efeito do exercício no desempenho cognitivo é dependente de intensidade e volume, onde alguns estudos relatam que exercícios de intensidade e duração moderadas parecem atenuar a disfunção cerebral. Na realidade, muitos estudos observaram que, após uma sessão de treino com intensidade submáxima com duração de 20 – 40min, melhora o desempenho sensório-motor e cognitivo.
Mudanças no metabolismo celular levam tanto a fadiga central quanto periférica, onde a acidose (nível baixo de pH) e acúmulo de metabólitos na corrente sanguínea derivados de espécies reativas de oxigênio (ROS), como fosfatos inorgânicos, íons de cálcio, lactato, ADP, magnésio, e a depleção dos depósitos de glicogênio, são fatores de quebra da homeostase orgânica. A fadiga periférica tem forte correlação com mudanças no ambiente interno (homeostase). As mudanças mais importantes durante o exercício ocorrem quando a produção de lactato ultrapassa a sua capacidade de remoção, aumentando a quantidade de lactato e íons hidrogênio no sangue. Além disso, o acúmulo de fosfatos inorgânicos e íons hidrogênios no sarcoplasma pode reduzir a força de contração devido à inibição da interação das pontes cruzadas de actina e miosina.
De fato, os mecanismos que levam a fadiga são complexos e ainda estão sendo entendidos. Vale ressaltar que cada atleta tem sua individualidade biológica, o que faz com que esses mecanismos possam se sobrepor de forma distinta em cada um. Porém, o que temos certeza é de que, uma recuperação inadequada juntamente com uma alta carga de treinamento, competições em sequência e fatores estressantes independentes do treinamento, levam a um desequilíbrio crônico culminando em fadiga crônica.Compreender as causas e os mecanismos subjacentes é o primeiro passo para melhorar o desempenho e evitar o esgotamento. Seja você um atleta experiente ou alguém que está apenas começando, aprender a reconhecer e controlar a fadiga será essencial para alcançar seus objetivos de performance e saúde.

ESTRATÉGIAS PARA MINIMIZAR A FADIGA
1 – Nutrição adequada: manter uma dieta equilibrada, rica em todos os nutrientes essenciais para a manutenção celular e energética. Para atletas de Endurance de longa duração, a ingestão de carboidratos é muito importante para retardar a fadiga, visto que um dos fatores fisiológicos da fadiga é a depleção dos estoques de glicogênio.
2 – Hidratação: Manter-se hidratado antes, durante e após o exercício é fundamental. Bebidas esportivas contendo eletrólitos podem ser especialmente úteis em sessões de treinos intensos ou prolongados.
3 – Consistência no treinamento: Manter uma boa frequência dos treinamentos, respeitando a intensidade e a duração de cada sessão permite que o corpo se adapte e melhore sua eficiência energética e resistência muscular. Esse é um ponto onde vejo muitos atletas pecarem.
4 – Técnicas de recuperação: Sessões de alongamento, massagem e sono de qualidade ajudam a recuperação muscular e reduzem a fadiga acumulada.
5 – Gestão psicológica: Técnicas como meditação, visualização, respiração (breathworks) e concentração podem melhorar a resiliência mental e reduzir a percepção de esforço.
Prof. Me. Eduardo Figueiredo
Coach @cordellateam
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