Sullivan Middaugh e Alizée Patiès conquistam o Mundial de XTERRA
Os brasileiros melhores classificados foram Diogo Malagon e Maria Paula Mesquita Rodarte
Redação
Em uma edição histórica disputada no Novo México, nos Estados Unidos, o norte-americano de 20 anos venceu em casa com quase seis minutos de vantagem, enquanto a francesa dominou o ciclismo para conquistar seu primeiro Mundial.
A 30ª edição do XTERRA World Championship marcou um capítulo especial na história do triathlon off-road. Realizada no Novo México, nos Estados Unidos, a competição reuniu alguns dos principais nomes da modalidade em um percurso técnico, exigente e disputado em altitude, cenário que colocou à prova não apenas a capacidade física dos atletas, mas também a estratégia, a habilidade sobre a bicicleta e a resistência nas trilhas.
Três décadas depois da primeira edição do campeonato, realizada em Maui, no Havaí, em 1996, o norte-americano Sullivan Middaugh e a francesa Alizée Patiès escreveram seus nomes na história da prova ao conquistar seus primeiros títulos mundiais de XTERRA.
O desafio começou com 1,5 km de natação, seguido por 27 km de mountain bike em trilhas rochosas e trechos técnicos nos arredores de Grindstone Mesa. Para encerrar, os atletas enfrentaram 10 km de corrida por ruas da região e trilhas de floresta em Wingfield Park.
Em um percurso no qual qualquer erro poderia custar posições preciosas, Middaugh e Patiès encontraram maneiras diferentes de construir suas vitórias: ele combinou agressividade na bicicleta e uma corrida consistente; ela transformou o ciclismo em sua principal arma para abrir uma vantagem decisiva antes dos quilômetros finais.
Sullivan Middaugh
Na disputa masculina, Sullivan Middaugh transformou o conhecimento do terreno e a preparação para a altitude em uma vitória expressiva. Aos 20 anos, o norte-americano completou a prova em 2h06min50s, conquistando seu primeiro título mundial de XTERRA e abrindo 5min56s de vantagem sobre o espanhol Nacho Gálvez, segundo colocado. O dinamarquês Jens Emil Sloth Nielsen completou o pódio.

Gálvez saiu na frente da natação, com 18min21s, acompanhado de perto por Sullivan e seu irmão Porter Middaugh. A liderança, porém, começaria a mudar já nos primeiros quilômetros do mountain bike.
Determinado a impor seu ritmo antes dos trechos mais técnicos, Sullivan acelerou desde o início da segunda etapa. A disputa ganhou contornos dramáticos quando Gálvez caiu na primeira curva do percurso ciclístico e o próprio Middaugh sofreu uma queda na terceira curva, perdendo seu ciclocomputador.
Sem os dados de potência, o norte-americano precisou confiar nas próprias sensações para administrar o esforço. A adversidade acabou não comprometendo sua estratégia. Pelo contrário: Sullivan registrou o melhor tempo do ciclismo, com 1h07min18s, e chegou à segunda transição com uma vantagem importante.
Na corrida, voltou a demonstrar superioridade. Com 39 minutos nos 10 km finais, também estabeleceu o melhor tempo da etapa entre os homens da elite. O resultado consolidou uma atuação praticamente completa, construída sobre duas das principais características exigidas pelo triathlon off-road: capacidade de sustentar intensidade nas subidas e controle técnico nas descidas.

“Eu sabia que, em altitude, conseguiria correr nas subidas tão rápido quanto qualquer outro. Então, forcei em cada subida, deixei o terreno fluir nas descidas e dei tudo o que tinha”, explicou Sullivan após a chegada.
Gálvez, apesar da queda na bicicleta, manteve a concentração e garantiu a medalha de prata. O espanhol destacou que não perdeu a confiança durante a prova e que conseguiu entregar tudo o que ainda tinha na corrida.
Já Sloth Nielsen protagonizou uma recuperação importante. Depois de iniciar o ciclismo na 13ª posição, o dinamarquês avançou pelo percurso e terminou em terceiro. Para ele, a preparação específica para a altitude foi determinante para os dois primeiros colocados.
O francês Arthur Serrières, então campeão mundial, terminou na quarta posição, seguido pelo compatriota Maxim Chané.
O resultado também teve um significado especial para a família Middaugh. Josiah Middaugh, pai de Sullivan e ex-campeão mundial do XTERRA, terminou em sexto, enquanto Porter ficou em sétimo. Assim, três integrantes da mesma família encerraram a prova entre os sete primeiros colocados.
“É um dia de muito orgulho. Estou muito feliz pelo Sullivan. Do início ao fim, ele conseguiu fazer tudo dar certo”, afirmou Josiah.
Para o novo campeão, a conquista vai muito além do resultado esportivo. Crescer acompanhando o pai nas competições e vivenciando o ambiente do XTERRA fez parte de sua formação como atleta.
“Significa tudo para mim. Foi assim que crescemos, assistindo ao nosso pai e indo às provas com ele”, declarou Sullivan, que também recordou o incentivo recebido de Arthur Serrières após sua estreia em Maui, em 2021. Na ocasião, o francês o aconselhou a continuar no esporte — uma lembrança que ganhou um novo significado diante da conquista mundial.

Alizée Patiès
Entre as mulheres, a francesa Alizée Patiès também conquistou seu primeiro título mundial de XTERRA, com uma estratégia que combinou paciência na natação e agressividade no mountain bike. Ela cruzou a linha de chegada em 2h36min19s, deixando a italiana Marta Menditto em segundo lugar, a 6min14s, e a australiana Maeve Kennedy na terceira posição.
A natação terminou com Raquel Solis, da Costa Rica, e Emma Ducreux, da França, na liderança, ambas com 20min38s. Patiès saiu da água logo atrás, na terceira colocação, sem demonstrar preocupação em recuperar imediatamente as posições perdidas.
A francesa sabia que a prova não seria decidida nos primeiros minutos. Em um percurso com subidas exigentes, trilhas técnicas e uma corrida final desgastante, a capacidade de distribuir o esforço entre as três modalidades seria fundamental.
“Minha natação foi bastante difícil. Tive problemas para começar como normalmente começo, então preferi deixar o grupo da frente seguir e encontrar meu próprio ritmo. Sabia que a prova não seria decidida na natação”, explicou.
A decisão se mostrou acertada. No mountain bike, Patiès assumiu a liderança e passou a construir sua vantagem de forma consistente. Com 1h20min45s nos 27 km de ciclismo, registrou o melhor parcial da disputa feminina e abriu uma diferença que suas adversárias não conseguiram neutralizar.
O esforço, entretanto, teve um preço. Na corrida, a francesa precisou administrar o desgaste acumulado, especialmente na segunda volta, quando a fadiga se tornou mais intensa. Mesmo sentindo os efeitos de uma etapa ciclística muito forte, manteve o ritmo necessário para proteger a liderança e confirmar o título.
“Foi muito difícil correr, especialmente na segunda volta, porque sentia dores por todo o corpo. Acho que tinha forçado muito na bicicleta. Dei tudo o que tinha e nunca desisti”, contou a campeã.
A briga pelas outras posições do pódio permaneceu aberta até os quilômetros finais. Marta Menditto começou a corrida na terceira colocação, mas encontrou forças para superar Emma Ducreux na segunda volta. A italiana registrou o melhor tempo de corrida entre as mulheres, com 50min42s, e garantiu a medalha de prata.
Maeve Kennedy também ultrapassou Ducreux nos momentos finais, assegurando o terceiro lugar. Para a australiana, que vive em Wānaka, na Nova Zelândia, o resultado foi consequência de um esforço coletivo, envolvendo família, equipe, parceiros de treinamento e apoiadores.
Menditto, por sua vez, ressaltou a importância da preparação prolongada no Novo México para enfrentar as características do percurso. As trilhas técnicas e as subidas exigentes tornaram a prova especialmente desafiadora, mas também ofereceram a oportunidade de colocar em prática o trabalho realizado antes do campeonato.
Para Patiès, a vitória representou a realização de um objetivo cultivado durante anos. “É um sonho de uma vida inteira. Ainda é um pouco difícil assimilar tudo neste momento. Aguentei firme e continuei acreditando. Agora consegui, e estou muito feliz”, celebrou a francesa.

Brasil
Os brasileiros melhores classificados foram Diogo Malagon, na 17ª colocação geral (1º na categoria 40/44 anos) com 2:33:51, e Maria Paula Mesquita Rodarte, na 16ª colocação geral (1ª na categoria 30/34 anos) com 3:10:35.
O Mundial do XTERRA reforçou a identidade da competição como uma das principais referências do triathlon off-road internacional. Desde sua estreia em Maui, em 1996, o campeonato construiu uma trajetória marcada por percursos naturais, desafios técnicos e atletas capazes de combinar resistência, habilidade e estratégia em ambientes muito diferentes dos encontrados nas provas tradicionais de triathlon.