Treino de Endurance a longo prazo e risco cardíaco

Entenda o que dizem os estudos mais recentes

Treino de Endurance a longo prazo e risco cardíaco

Atualmente ninguém duvida que o treinamento físico seja importante e fundamental para a saúde global do indivíduo. Porém, seria possível atletas que realizam níveis de atividade física que ultrapassam em muito o recomendado e regularmente desafiam a resistência humana sofrerem efeitos deletérios no corpo?

Existiria uma dose ideal de treinamento para obter maiores benefícios? E quanto ao treinamento de Endurance exaustivo, seria mais prejudicial do que benéfico ao corpo?

Antes de responder essas perguntas, precisamos lembrar que o benefício do exercício ao sistema orgânico é bem documentado, e já está bem estabelecido que indivíduos que praticam o recomendado pelas diretrizes de no mínimo 75 min de atividade vigorosa ou 150/300 min de atividade moderada por semana, o equivalente a 7,5 - 15 MET h/sem, podem obter benefícios substanciais à saúde. Além disso, evidências sugerem que realizar mais que o dobro do recomendado pode trazer benefícios adicionais.

Recentemente a lenda e seis vezes campeão mundial do Ironman, Dave Scott, foi submetido a uma cirurgia de coração. O ex-atleta profissional fez um comunicado em suas redes sociais associando seu problema cardíaco atual com o excesso de treinamentos de longa distância ao longo dos anos de sua carreira. De fato, não é a primeira vez que observamos atletas de alto nível sofrerem com algum problema cardíaco, mas será que existe uma dose maléfica do exercício? Em 2015 um estudo (Arem e colaboradores, 2015) analisou a dose-resposta da atividade física de lazer (nesse estudo foi relatado atividades como ciclismo, caminhada, corrida, natação e dança) e mortalidade. Após 14 anos de acompanhamento em mais de 600 mil participantes, os autores observaram que a redução do risco de mortalidade passou de 20% com níveis mínimos de atividade (0,1 – 7,5 MET h/sem) para uma redução de 37% para quem realizou de 2 a 3 vezes o mínimo recomendado pelas diretrizes. Os autores também observaram um limiar superior do benefício para mortalidade para quem realizou de 3 a 5 vezes o mínimo (22,5 – 40 MET h/sem). Quanto a questão de que o exercício em níveis mais elevados poderia trazer danos aos participantes, os autores não observaram evidências de danos à saúde em quem realizou 10 vezes ou mais acima do recomendado (≥ 75 MET h/sem), o que equivaleria a realizar, em média, 5 horas de atividades diárias. Mais importante, uma dose-resposta semelhante foi observada para mortalidade por doença cardiovascular e câncer.

Acredito que muitos dos nossos leitores se enquadrariam no grupo que realiza de 2 a 3 vezes o mínimo, ou seja, treinam em média 2 horas por dia.

Um questionamento que podemos fazer com relação aos resultados desse estudo, é de que a análise foi feita em uma população que praticava atividade física de lazer, ou seja, não tinha o perfil de um atleta como o Dave Scott. De fato, poucos estudos avaliaram os efeitos do treinamento de Endurance de alta intensidade na resposta às adaptações cardiovasculares e seus possíveis efeitos colaterais. Sabemos que esse tipo de exercício provoca adaptações cardíacas a nível estrutural, funcional e elétrico que é caracterizado clinicamente como “coração do atleta”, veja a matéria abaixo:

Coração de atleta: Benefícios x Riscos
O exercício em nível muito elevado – no caso de atletas competitivos – pode fazer mal?

Entretanto, essas adaptações podem trazer efeitos deletérios ao indivíduo, por exemplo, em alguns estudos podemos observar biomarcadores cardíacos aumentados, fibrilação atrial, fibrose miocárdica e calcificação da artéria coronária em atletas mais velhos em comparação com indivíduos não atletas.

Com o aumento da popularidade do esporte de Endurance (Triathlon, corrida e ciclismo) observou-se também um aumento da idade média dos participantes desses esportes. Para muitos, completar um Ironman ou uma maratona se tornou meta de uma vida. Portanto, se torna cada vez mais necessário o acompanhamento e estudos para entender os efeitos a longo prazo do exercício no perfil cardíaco desses atletas que iniciaram sua “vida esportiva” mais tarde.

Um aumento da calcificação arterial coronariana (CAC) já foi observada em atletas de maratonas saudáveis em comparação com não atletas. Outros estudos acrescentaram que atletas que apresentavam placas coronarianas eram mais propensos a terem placas calcificadas, enquanto não atletas apresentavam mais frequentemente placas mistas. Como as placas calcificadas são mais estáveis e menos propensas à ruptura do que as placas mistas e não calcificadas, esses achados foram interpretados como benignos e não alarmantes.

O escore de CAC fornece uma avaliação mais direta da aterosclerose arterial coronariana. O aumento da atividade física tem sido associado à redução do escores de CAC na maioria dos estudos, apesar da maioria deles examinarem o escore de CAC em níveis leves a moderados de exercícios. Paradoxalmente, alguns estudos vêm associando o aumento de CAC em atletas de Endurance de meia idade de treinamento de longo prazo, ou seja, que treinaram ao longo de boa parte da vida.

Recentemente, um estudo (Bosscher e colaboradores, 2023) relatou que a participação em esportes de Endurance ao longo da vida não estaria associado a uma composição de placas coronarianas mais favoráveis em comparação com indivíduos que tinham um estilo de vida moderadamente ativo (até 3 h semanais de atividades). Pelo contrário, atletas de meia idade que treinaram ao longo da vida – e nesse grupo entravam atletas que haviam iniciado sua vida esportiva antes dos 30 anos de idade e tinham histórico de treinamento de ciclismo ou Triathlon acima de 8h semanais, ou corrida acima de 6h semanais – apresentaram mais placas coronarianas, incluindo placas não calcificadas mais instáveis. Além disso, esses atletas masters (entre 45 e 70 anos) de longo prazo não tiveram proteção adicional contra aterosclerose coronariana em comparação a indivíduos com um estilo de vida ativo e saudável (indivíduos que realizavam ≤ 3h de atividade física semanal). Os autores relataram que a carga global de placa coronariana, que estaria associada a um maior riso de mortalidade, foi maior em atletas que treinavam ao longo da vida em comparação ao grupo que incluíam atletas de início tardio, ou seja, que iniciaram o treinamento regular após os 30 anos, mas mantinham o volume semanal próximo ao grupo de longo prazo. Os autores sugerem que um estilo de vida saudável com treinamento cardiorrespiratório e condicionamento físico acima da média, ou seja, superior a população geral, previne a aterosclerose coronariana com um padrão de placas mais favoráveis, mais calcificadas e menos misturadas ou não calcificadas. Além disso, incrementos adicionais de carga de treinamento no esporte de Endurance e aumentos associados no condicionamento físico não afetaram a distribuição de placas (nesse caso atletas de início tardio).

Entretanto, o treinamento intenso de Endurance ao longo da vida aumentou a carga aterosclerótica coronariana global com mais placas, incluindo placas mistas e não calcificadas, em segmentos proximais e com um grau significativo de estenose (estreitamento do vaso).

Outro estudo (Aengevaeren e colaboradores, 2023) analisando a progressão da aterosclerose coronariana em homens de meia-idade e mais velhos durante 6 anos que treinaram em intensidade alta (+ de 40 MET h/sem), demonstrou que a intensidade e não o volume foi associada com aterosclerose coronariana. Assim como em outros trabalhos, pode-se considerar que maiores pontuações da CAC e maiores placas coronárias em atletas podem ser interpretados como um efeito deletério do exercício nas artérias coronárias, entretanto, a natureza calcificada e estável das placas em homens atletas também podem ser considerada como protetora contra a ruptura da placa e infarto agudo do miocárdio. Além disso, observa-se que atletas de Endurance tem artérias coronárias maiores e maior potencial vasodilatador, o que significa que a relação placa/vaso em atletas poderia ser menor e, portanto, levar a uma estenose menos significativa.

Apesar desse estudo e outros terem encontrado uma maior prevalência e gravidade da aterosclerose coronária em atletas, que foi associada a intensidade e volume de exercício ao longo da vida, os atletas têm uma expectativa de vida superior ao da população em geral. Para mostrar isso, vou trazer dados de alguns estudos dentre tantos outros. Dois estudos (Kettunen, et al., 2015 e Sarna, et al., 1993) finlandeses encontraram um aumento na expectativa de vida de 5-6 anos em atletas de Endurance (esquiadores) de nível mundial em comparação com uma coorte militar de referência, e mais importante, a redução do risco de mortalidade cardiovascular e câncer foram os principais contribuintes para o aumento da taxa de sobrevida da população atlética.

Esses achados foram posteriormente confirmados por uma meta-análise (Garatachea, et al., 2014) que incluiu dados de mais de 40 mil atletas de elite, onde foi relatado uma redução de 33% no risco de mortalidade por todas as causas. Assim como nos estudos dos esquiadores tanto a mortalidade cardiovascular quanto por câncer foi significativamente menor nos atletas em comparação aos controles.

Um estudo (Clarke, et al., 2012) muito interessante envolvendo mais de 15 mil atletas olímpicos e medalhistas entre 1896 e 2010 relatou um aumento de aproximadamente 3 anos na expectativa de vida comparados a população geral. E finalmente, um estudo (Marijon, et al., 2013) observou que 786 ciclistas profissionais que participaram do Tour de France tiveram uma redução na taxa de mortalidade por todas as causas em 41% e mortalidade cardiovascular em 33% em comparação a homens da população geral.

Esses resultados demonstram haver um fator protetivo com o exercício, mesmo em atletas de alto nível, que não reflete em si os resultados dos estudos recentes sobre um aumento de placas e risco maior de aterosclerose coronariana. Porém, mais estudos são necessários para acompanhar e avaliar esse padrão que está sendo observado mais recentemente em atletas profissionais e recreativos.

Entretanto, devemos nos atentar a um detalhe que não foi discutido aqui e, que esses estudos recentes não abordam, que é sobre a individualidade do atleta, rotina, qualidade de vida (sono, estresse, alimentação), uma vez que, muitas vezes ser atleta – e isso eu incluo profissionais e amadores – não significa estar saudável. O que eu mais observo nos atletas amadores são problemas associados a rotina de vida, que ao final, uma preparação para um IM ou uma maratona termina custando caro para a saúde.

Treinar de forma equilibrada em paralelo a um estilo de vida saudável ainda é o melhor jeito de afastar esses riscos (como evidenciou o estudo de Bosscher e colaboradores). Nosso corpo é muito forte, mas nem todos terão essa capacidade de sustentar níveis muitos elevados de esforços, conhecer suas limitações e barreiras no esporte faz parte do processo.

Bons treinos.

Notas:

  • Triatletas, corredores e ciclistas, principalmente que treinam em intensidades e volumes mais elevados (acima de 40 MET h/sem) devem realizar exames periodicamente, de preferência anualmente. Atualmente o exame mais utilizado para detecção de calcificação da coronária é a tomografia computatorizada, além do escore de cálcio. De qualquer forma, é importante todo atleta estar sendo acompanhado por um médico cardiologista do esporte e entender que mesmo sem histórico, essa é uma condição que pode ser adquirida ao longo da vida esportiva.

  • Abreviação: MET h/sem = Equivalente metabólico da Tarefa – 1 MET equivale a 3,5 ml de O2 por min. É o equivalente a manutenção basal do nosso corpo em repouso. 7,5 MET h/sem equivale às recomendações das diretrizes de atividades, ou seja, 150min por semana.

Prof. Me. Eduardo Figueiredo Coach CordellaTeam Personal Trainer @prof.edu.figueiredo

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